«que sentir é este sentir dos meus sentidos a sentir?»

«os sentidos são a engenharia da arte e o sentimento o projeto»

domingo, 28 de junho de 2009

certo silêncio

Hoje
só quero
um certo silêncio
uma palavra
sem letras
o dia
e a luz
uma obra
no céu
e um
olhar na terra
estrelas
com o sabor
do corpo
o que sou
sem ser
(e o vento
fustiga
meus lábios)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

toco-te para te deixar de sentir



























toco-te para te deixar de sentir
e sinto-te quando o meu corpo
se dissolve no teu quando me tocas

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Lua Erótica






















Três horas da manhã
noite quente
vontade ardente
Ela tinha surgido
de um sonho ainda
não adormecido.

Ah se as suas palavras
irrequietas de desejo,
pulsantes de sensações,
pudessem transformar
aquelas quatro paredes
num mundo de emoções
indetermináveis:
- loucura ou sonho
- vontade ou desejo

Penetrar dentro dela,
cheirar a sua poesia
possui-la palavra a palavra
rasgar os seus versos
morder as suas profanidades
com os anseios da minha carne
na sua verdade ardente
é o meu sonho indeterminável…

Eu senti-a tanto
que perdi na noite
o meu respirar
Olhei a lua
e senti um beijo seu
que me devolveu
o ar que asfixiava o quarto.

Retornei a olhar
e reparei que ceguei
era ela tão erótica
que surgiu em lua
ou no luar do seu mar

O quarto ficou em silêncio
uma parte de mim
partiu sem outra parte de mim:
- foi amar o que nunca antes
tinha amado
e sonhar
como nunca tivesse sonhado.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

e me condeno tanto...
























É dia de verão
condeno o calor ardente
do meu corpo em ti
ele chegou depois
e nunca veio antes
e hoje ele não vai chegar
esperei antes de te ter
tive-te depois de não puder ser.

Perdi o lugar onde te esperava
só me resta o amparo do horizonte
já não chegas
e as ondas tombam de saudade.

Eras tu que fazias nascer as manhãs
aquecias o Sol com o teu corpo
enlaçado nos meus braços
e os teus lábios nos meus
avinhavam a tarde quente.

Anseio num repouso
em que já não te aguardo
aperta a água salgada
na minha boca
a conservar a palavra
para que se preserve intacta
até que a lua beije teus lábios
e nessa noite um só desejo
numa paixão já marcada
que vai despindo
a roupa que cai para o lado
e o meu corpo se deita no teu
…e me condeno tanto
amar assim é castigo!

E o meu grito afoga-se com a maré,
o meu silêncio voa agora na gaivota
que repousa nas águas do mar

Peço-te, as minhas palavras
sempre foram crime,
abate-me com o teu último olhar

terça-feira, 23 de junho de 2009

um pouco de ti que é muito



















Há um pouco de ti que é muito.
Incapaz de chegar até ti
guardo para mim
o pouco de ti que posso receber,
um quase nada que é tão imenso.

Este pouco qb, vindo de ti,
é tão grande que não encontro
espaço neste universo,
nem do universo dos universos,
para o reter.

De onde vens? Quem és? Eu de ti nada sei.
E apenas agora com tão pouco,
eu que pensava precisar de muito,
apenas quero um pouco de pouco
do pouco que me dás.

Tudo o que chega para perceber
todo o sentido dos meus sentidos…
E tão pouco sei quem és…
és apenas a última sílaba do silêncio
do meu último gemido de orgasmo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

...só mais uma vez




















Só mais uma vez
o sabor dos teus lábios nos meus
e nus e rijos teus fartos seios
em aperto nas minhas mãos

...só mais uma vez!

Pudesse eu ser teu
e na tua cama a minha pele
a despir a tua de puro desejo
as almas esquecidas
e os corpos com os sentidos
a descer o desejo e levitar as almas
das mãos em brasa pelas carícias
do tocar da nudez da carne

...só mais uma vez!

Não há o lugar para as almas
Mas os corpos, os corpos se unem
fundo galgando margens
até tudo ser mar
Corpos tatuados de imagens
embriagadas pelo sémen
e o clítoris latejante de frémitos espasmos
e um silencio demorado
sussurrado pelo orvalho da carne
e o corpo jamais nega
eréctil falo na húmida vulva
o sabor de tudo começa aqui
no delírio do sentir de todas as vibrações
Qual alma que respira
o êxtase é do excesso do sexo
só os sentidos falam…

...só mais uma vez!

O tempo não é breve nem longo
as horas inundam as veias
perfumes, odores, sentidos…
os gritos que ainda se escondem
dentro do sexo das nuvens…
que por vezes numa brisa
toma a tua forma despida
e te folheia folha a folha
em som da voz a chamar por ti

... só mais uma vez!

E tanto amor fizemos
que não coube nesta vida
ambos tivemos que morrer
para nascer outro dia talvez
Este tempo sem testemunhas
que quase não passou por aqui
apenas esta ausência profana
que ainda arde
e viola todas as leis…

...só mais uma vez!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

assim sou eu...


























Porque grito o silêncio
que me persegue na vida?
Porque oiço as palavras
que não digo ou escrevo?
Porque recorta o tempo
o papel sempre branco?
Se ao menos eu fosse corpo
teria a sombra para falar
e podia ler a minha sina
espalhada pelo chão.
Mas sou apenas alma
cativa em meus mistérios
querendo ser tudo e nada
no absinto das veste de um homem
que se cala no sonho
que sonhou ter sonhado…
E assim sou eu!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

um novo olhar...























Andei à tua procura
E nesta busca incessante
Em que julgava distante,
Fui encontra-te neste dia…
Vinhas nu, cheio de sangue e só,
E naquele momento senti a magia
Do amor a purificar o pó…

Comovido, por tanta alegria, não ri,
Peguei-te ao colo e sai
Meio confundido e aturdido,
Queria que te sentisses aquecido…

Entreguei-te à tua mãe
Embora não chorasses e não sorrisses
Ela sabia concretamente
Que eras o seu filho…

Na ânsia de ao colo te pegar
Olhou-te, sorriu-te e achou-te parecido comigo
Senti que querias dizer-nos segredos…
(afinal os bebés não falam)
Não falavas, mas tinhas ar de graça
a graça que se fitou diante de mim

E agora tu eras ele a quem eu, sem experiência,
tinha que tratá-lo…
E assim… com ele nos braços, permaneci ali
a dizer a toda a gente
como era lindo no meu embalo
Compreendi, então, que devia
traze-lo ao seio da família
e dizer que aqui está
quem vai encher o vazio da minha vida….
E ele sorria...
ninguém entendia o que queria
mas eu sentia o calor do seu corpo
frágil, despido e a querer falar…
Queria entender a mensagem
naquele pasmo de inquietação
auscultei-lhe o coração
e por fim ouvi:
- Eu sou teu filho,
nasci para trazer amor…

Parecia que ninguém entendia…
mas ele nos meus braços sorria
e mais dizia:
- Começou a viagem
sem bilhete de passagem…

Sai pela porta do hospital
que ali já me sentia errante
há tanto enfermo a quem a morte espreita
e vive agonizante e sem esperança…
(e há pouco muito pouco nasceu uma criança)
haja luz na sua cama estreita…
Mostra-me mais ali…
São presos na cadeia?!
Sim, homens vítimas de si e de uma ideia
que ainda não sabem que nasceu outra vida…

Há neste mundo gente a mais com fé perdida…
e em espeluncas e catres de tortura
sórdidos de vícios um aceno de ventura
será que na tua vida há paz e amor?!
Não te posso garantir a renovação
e a exaltação
de tudo o que é de valor!

Quanto de humano existe no coração
de aceitável e generoso,
de quando é agradável e bondoso…
Tu nascente como esperança…

...Não devias ter percebido
as minhas palavras sem sentido...
...e adormeceste!...

Quando pensei que ainda dormias
pude ouvir:
“Para onde me levas?”
Para casa, respondi já nervoso,
Tão pequeno e já tanta inquietação
- Vês aquelas estrelas no céu
tu hoje estás a vê-las brilhar
mas um dia a vergonhas bate-lhes à porta,
mas que importa
tu és a coisa mais bela, uma verdade
o brilho maior de todas as estrelas…
és filho do céu, uma vida que nasceu
da vida de outra vida pela vontade…

E assim despeço-me com um beijo em sua face
de tal modo o beijo foi ardente
de tal maneira ele o sentiu
que abriu os olhos castos de repente
E sorriu… sorriu…

Este beijo que te fez acordar
veio da doce estrela brilhante do mar…

…Não escutes as minhas palavras
elas nada dizem ao teu olhar…

sexta-feira, 29 de maio de 2009

a fonte das palavras...























Já passei o meio da vida
não me dói o corpo
o sol ainda brilha
Quero regressar
a onde nunca fui
aos lugares que não conheci.

Lá longe
onde longamente contemplo
a sede do rio de poesia
vindo da fonte que não bebo.
Apenas pudesse eu lavar
as minhas mãos
e limpar meu rosto
nas palavras…

Mas são outras as águas
que se agarram a mim
aquelas de gotas de cristais
que se quebram quando falam
e rasgam os meus lábios
nos suspiros da sua pronuncia.

Vou morrer qualquer dia
(ninguém escapa a morte)
mas o Pessoa e outros tais
beberam da água desse rio
que eu apenas contemplo
e jamais alcanço…
(satisfaz-me simplesmente saber
que eles não esgotaram sua sede).

Naquele lugar
não vão partir caravelas
ou barcos imensos
apenas versos azuis
para mares incertos
rumo a jardins náufragos
nos oceanos de todos
os universos para além do universo

Eu contemplo esse lugar
nunca será meu…
mas irei lá voltar
vou querer sempre
uma e outra vez mais espreitá-lo
por detrás da folhagem branca da floresta
aquela fonte de água viva
onde nascem as palavras
que não são minhas.

Não importa viver nesta mentira
se por pouco muito pouco
eu posso ser a criança
a sentir o lugar
onde nasce, vive e dura a poesia.
Mesmo sem a metade da vida
dá sentido a toda a vida.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

se eu soubesse...







se eu soubesse dar as palavras
o seu sentido certo eu não estaria incerto desta certeza que se recusa a escrever
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