«que sentir é este sentir dos meus sentidos a sentir?»

«os sentidos são a engenharia da arte e o sentimento o projeto»

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Lambe-me a brisa




























Lambe-me a brisa
nesta noite quase fria
caminho embriagado
pelo azul que bebi do dia
as sombras cheias de melancolia
hospedam-se no meu silêncio
a palavra incerta
acolhe o pensamento
e respira o hálito do vento
com uma lufada de odores
vindos de corpos quentes.

Ouvem-se latidos abafados
apanágios das feras
que assaltam pocilgas
e a noite nada de novo revela
e assim continua
a aparência da vida.

Insignificantes estas palavras
que acabam, como sempre
a não conduzir a nada
eu apenas sei
que sou o primeiro e último
a caminhar nesta estrada.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

contradição do amor




























amo quem nunca amei
e amei uma só vez
nos instantes
ainda não consumados
este amor sempre amado
peca por ser demasiado
perpétua contradição
deste amor tão profundo
sempre e sempre inacabado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um olhar sobre ti




















Um olhar sobre ti
imensos desejos
para consumir
teu corpo
num oceano vazio
por entre rochedos
que espalham
ecos dos teus orgasmos.

salva-me deste vazio
faz teu corpo de mulher
o ventre dos filhos
crepúsculo celular
dentro de outro.

a cama desfeita
pela vontade louca
da sede do sol
que engole a noite
pela manhã.

sábado, 8 de agosto de 2009

momento presente perdido para sempre




























Não me dês a mão
foge de mim
deixa escapar esta paixão
não me queiras assim
há um outro ser por ai
a não querer só o momento
da tua opaca nudez

queima esta carne viva
tão pulsante diante de ti
esvazia-me a alma
leva-me todos os sentidos
para que o nada
me roube o espaço
do horizonte
do teu corpo

peço-te
torna este momento presente
perdido para sempre.

domingo, 2 de agosto de 2009

o outro ser

























Nu nesta noite quente.
dois olhos no espelho
olham para mim
imagem que tento decifrar
olhar que não conheço
alguém que se espelha em mim
tentando compreender
quem sou, o que faço no outro lado
com os meus dedos
quero esboçar seu corpo
tocar sua pele
e sentir sua carne.

Na barreira do vidro reflexo
encontro segredos escondidos
invisível corpo que desconheço
e na sua plana superfície
busco a alma da sua imagem
mas não a tacteio nem vacilo
Tudo que sinto são meus dedos molhados
um gemido vindo do outro lado
(o sémen espalha-se pelo seu reflexo)
Será meu ou será dele?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

procuro-te






















Neste vai e vem
saio de mim
à procura de ti
sufoco na sede
do teu respirar
sem te encontrar

No desejo de te ter
saio de mim
e voo cego por ai
pela luz do sol
despejada na lua

Pudesse eu te ver
perdido neste caminho
sem morada ou destino!…

Pudesse eu ser teu corpo
na espera que me encontro
onde mordo os lábios
nos beijos que não te dou
ver-te despedida, nua
com a minha pele vestida
e a minha boca a tua

Sonho-te por onde não sei
hesito a ir por ali
esperando aqui um além!...

Neste compasso de tempo
um tempo se perde do tempo
tão grande é o desejo de te ter
que perco o querer de ser.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

escondo-me


























Escondo-me
Não para fugir do mundo
mas para que o mundo não fuja de mim

Escondo-me
Não por ter medo de nada
mas para que o nada seja tudo

Escondo-me
Não da multidão por onde ando só
mas para poder ser alguém

Escondo-me
porque espero que me encontres
mesmo sendo ninguém

Se me perguntares a onde estou
posso não saber responder-te

procura-me…

e se me encontrares
guarda esse segredo contigo
eu posso não reconhecer-me

domingo, 5 de julho de 2009

trai-me






















Acordo
e não estás
saíste por ai
embriagada
pela energia
de amantes efémeros
não te condenes
o homem e a mulher
nasceram do pecado
a traição
do pensamento
é cúmplice do corpo
peço-te apenas
não concedas
a tua alma
entrega-te
ao momento
não queiras
entender
o teu gemido
de prazer
(a noite é tua)
trai-me
(com o teu corpo)
viola as leis
da fidelidade
e esquece-me
nesse instante
(sem dor)
liberta
o teu ser
de uma vontade
de ti
tentação
não te condenes
peço apenas
não me digas nada
não me traias
com o teu olhar
olha-me apenas
como sempre,
sem contrição,
o que olhos
não vêem
o coração
não sente
não há traição
e eu
sou igual
a toda a gente.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

engano

Um desejo
um prazer
agita-se
o sémen
antes de se vir
selvagem
galopante
corpo trémulo
arrepiante
nervo de néctar
latejante
violento engano
num instante
acaba caído
no fundo
vazio de
tudo.

domingo, 28 de junho de 2009

certo silêncio

Hoje
só quero
um certo silêncio
uma palavra
sem letras
o dia
e a luz
uma obra
no céu
e um
olhar na terra
estrelas
com o sabor
do corpo
o que sou
sem ser
(e o vento
fustiga
meus lábios)
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