«que sentir é este sentir dos meus sentidos a sentir?»

«os sentidos são a engenharia da arte e o sentimento o projeto»

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

…E TU PASSASTE





















… E tu passaste
- um bom sonho que passa -
como ilusão doirada que esvoaça
bem dentro do peito,
onde não cabe um mar insatisfeito
de saudade do tempo que vivi
ao pé de ti.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ONDE ME ENCONTRO!





















E o prazer a dor duma agonia...
A desfiar as horas do meu dia,
Como se o Paraíso fosse o Inferno,
E o prazer a dor duma agonia…

Deixo viver a vida que está morta,
Na transfusão do ser que não é nada,
Que eu vivo numa casa sem porta,
Caminho num deserto, sem morada...

E julgo que sou eu... E eu... pessoa
Que pensa ama e crê... sem caminhar
Na senda certa em que vive à toa...

O som e a sombra são o jovem e o velho,
Que se vestem de branco e de vermelho,
Onde me escondo para não me encontrar...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

INTERROGAÇÃO DO DIA




























Distante de tudo
Sinto-me um simples pesquisador
de ódios seduzidos pelas distâncias
do homem neste pequeno espaço
onde todos temos que estar:
interrogo-me se já não esgotamos o amor.
O sentimento parece não ser capaz
de alegrar a almas dos poetas.
Nas veias deixou de correr o sangue
quente que devia aquecer o coração
resfria a garganta tornando asparas as palavras
que trazem a morte ao ouvido.

Quem ainda sente nestes lados
apenas suspeita de uma outra vontade
iluminada pelos olhos da saudade
onde passeiam gaivotas à beira mar

Aqui partiu a luz do dia:
só a noite trouxe este poema
a recordar a memória de um amor
que eu pensei que existia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

ROSAS DO OUTONO























Invoco agora neste momento
o prazer rejeitado dos sentidos
vindos com as rosas do Outono,
onde ninguém ainda tocou
(amores virgens de outros tempos).
Cheios de néctar de nenúfares de amor
em breves possessões de desejo
que brotam o prazer em vícios
derramados nos cálices encobertos
nos Hipogeus dos egípcios!

…E são tão raros estes momentos
em que posso conhecer a suavidade
da nudez do corpo da mulher:
o vago sono das rosas do Outono

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

SAUDADES DE UM POEMA




























Nesta noite,
não tive saudades de um amor,
nem de amar a mulher com doces palavras
em beijos que serei incapaz de contar
na cama onde sempre cabe um grande amor.
Apenas quis o que não vi, nem escrevi
Apenas sonhei ter sentido o que quis ver
na voz que se calou no tempo,
como ave ferida em noite fria.
Deitado na folha branca deste papel
esperei o poema que há muito o sinto,
as palavras que me ajudassem a escreve-lo
capazes de iluminarem o meu sentimento
nada mais surgiu que palavras banais
que o dia a dia destes meus dias
me fornece em excessos repetidos,
tornando iguais a todos os demais.
Fiquei apenas com os meus gestos
tentando inventar um poema
ainda não escrito no interior do dia
o poema que devia ter sido,
ficou escondido sobre o fato de um homem,
um homem (a)normal que quer e não quer
este desencontro continuado,
cerrando com um beijo os lábios
que deixou na boca uma saudade,
com um olhar indiferente a tudo
no sonho impossível de ser poema.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

PERDI


Perdi o sono
e talvez a vida
por ti perdi
Perdi o sorriso
a fantasia
a vontade de ser
e talvez de ver
tudo o que perdi
Perdi as palavras
achei-as nas lágrimas
desfeitas em água
salgadas de mágoa
Por onde andei
Por onde ando
perdido
eu sei
Eu que perdi.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

RETRATO DE NU





























A nudez corre-me nas mãos
no estremecer da caneta,
chegando por todo lado
no branco da minha tela.
Contornos lineares fazem adivinhar
o fogo da carne da tarde quente
deste Verão escaldante.
O corpo refresca no quadro,
de contornos poucos
mas que chegam para as mãos
sentirem toda a sua nudez.
Encarna o amor na ponta dos dedos:
onda branca de espuma firme
(feita de pincel fino)
adivinha a musica que atravessa
a melodia das tintas para o pintor.
Um corpo a outro corpo
se mistura no atelier do retrato
e já não incarna o amor,
apenas os tons rosados,
amarelos e encarnados,
contra um chão da paixão,
onde o olhar gasto se liberta
na respiração de uma cereja
de vermelho vivo perdido no branco.
De novo encarnam lábios beijando
bocas em tão loucos desejos:
feitos de um beijo que não foi pintado.

© Jorge Oliveira
Publicado no RL em 05/08/2008
Código do texto: T1113987
RETRATO DE NU

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

FOGO NAS VEIAS




























Há rios nas tuas mãos
que desaguam no teu corpo ardente,
entre margens brancas de areia,
Peixes chegam pela manhã
em alvos de água transparente,
deixando reflectir teu corpo nu
no trigo verde que se desfaz nas ondas,
onde descansam sonhos dispersos
gozando do calor das planícies.
E os nossos corpos tocam-se
com o ar das águas e dos campos.
Não sei se és gente, corpo ou alma
Pouco me importa, neste instante,
o que afogueia as minhas veias…

© Jorge Oliveira
Publicado no RL em 05/08/2008
Código do texto: T1113984
FOGO NAS VEIAS

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

NATUREZA MORTA




























Repousam rosas vermelhas
colocadas na jarra sobre a mesa,
misturam as sombras das paredes
por fios de luz que reflectem das cortinas.
O calor lá fora esquece o fresco interior
e afasta o horizonte de silêncio.
Brilham ainda vivas, é belo vê-las…
Parecem encobrir a noite que vem
com mistérios de perfumes
querendo chamar por alguém:
como pássaros que cruzam o interior
daquela vida exposta ao encovo do mundo.
Simples sentidos vividos neste dia
gravados em sons de cores e harmonia
que leva toda a essência da vida
apenas num breve segundo.
As rosas brilham sobre a mesa
como se fossem letras para mim
Amanhã é outro dia e o seu brilho já não é assim,
tal como a tela da minha poesia.

© Jorge Oliveira
Publicado no RL em 04/08/2008
Código do texto: T1111887
NATUREZA MORTA

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A CEGUEIRA DE DEUS!...






















O que poderá ver
quem um dia cegou?
Será o seu prazer
um indeterminável voo?

Eu, porém, cego não sou:
persegue-me uma luz,
como fosse uma cruz.

Será porque vejo
que tenho essa liberdade
de sentir esse desejo
de tal infelicidade?

Bem visto, eu vejo
a vida num ensejo,
vida que tanto aborrece
quem nesta vida padece
de tristeza mal merecida.

E porque vejo;
ficou-me na memória
aquele último beijo
dado sem qualquer glória
na face da criança sem sorte
que não teve o pão presente
no dia da sua morte
(essa criança também era gente).

DEUS, diz-me lá:
- AQUI ALGUÉM SENTE! SERÁ?
se NÃO, leva no vento
este estado descontente
do meu pensamento.
Faz-me ficar calado
ou traz-me o passado
de quem eu deixei matar.

Saberei o que digo?
Ou estarei só a falar comigo?
(Não Te tenho como inimigo).
Mas, porque existe este fim?
Tudo é contrário assim:
deixa-me morrer antes a mim.

Em Ti eu pus esperança,
mas no meu grito agora se descobre:
que perdi a confiança.
Faz de mim, rico, um pobre
e depois: agora sim,
faz-me o mesmo que à criança
dá-me idêntico fim
para eu acreditar em Ti.

Se Tu não és cego, Oh Deus!
Dá-me a sentir essa morte,
não leves a criança, mas eu…
para divisar essa fome forte.

Sou só um simples mortal,
não Te posso julgar afinal!…

© Jorge Oliveira
Publicado no RL em 04/08/2008
Código do texto: T1111858
CEGUEIRA DE DEUS!...
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