
bebe um copo comigo
na moldura do meu quarto
inquieta-me o sono
a manhã ainda espera
longe está o sonho
neste exíguo lugar
há um copo teu e outro meu
brindemos à solidão amorfa
de este quase estar
aqui contigo a brindar
vitima de mais um dia
perdido em outro lugar…
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
bebe um copo comigo
domingo, 8 de Novembro de 2009
apetece-me

apetece-me
tocar teus cabelos
olhar teus olhos
sentir as tuas mãos
entre as minhas
no teu corpo e seios
apetece-me
tocar o que não sinto
sentir o que não toco
neste azul entre os dedos
sábado, 7 de Novembro de 2009
inventa-me com os teus dedos

inventa-me com os teus dedos
dá-me todos os teus sentidos
descreve-me nos gritos
de teus ardentes gemidos
entrega-me apenas o teu corpo
deixa a tua alma para outro
quero-te sem as regras dos demais
(mesmo que seja por pouco)
quero-te a sós, a ouvir teus ais
deixa que as tuas mãos moldem as palavras
escondidas no corpo que nunca as diz
fundi-te a mim no instinto da sedução
da avidez da carne faminta de tesão
ou castra-me com este segredo
inesgotavelmente carente pelo medo
inventa-me com os teus dedos
mas não ouses me dar um sexo
o suave toque de tuas mãos sem nexo
podem fazer vibrar todo o corpo
(apanharás os cacos por ai no chão)
Como é grande este desejo em mim
e eu não lhe sei por um fim…
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
simplesmente o mundo respira

dispo a sombra do meu sentir
semeio na terra poemas inventados
sem as raízes das palavras
desprendem-se todos os sonhos
não sei que poemas são estes:
simplesmente o mundo respira
para além do meu silêncio
e tudo cabe dentro deste desejo
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
o meu sono azul

para quê esta inquietação
quando me deito na areia
à beira mar com a lua
se me aconchegam as estrelas
e na água flutua o beijo
que vai aquecer o horizonte?
o meu sono azul acorda sempre
no fundo branco do mar
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
nos teus olhos nascem gaivotas à beira mar
encontro um lugar no céu
que aquece meu corpo na terra
feito das saudades dos passos de verão
sob esta estranha leveza do frio de outono
decomponho o silêncio do teu olhar:
nos teus olhos nascem gaivotas à beira mar
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
foi tão breve o momento

foi tão breve o momento
em que gritei o vazio
no reencontro com a vida
tão irreal este delírio
devaneio dos sentidos
neste ritmo certo:
a fragilidade do ser
estilhaçado ao vento
a existência sorriu
na sombra colorida!
não me digas adeus

não me digas adeus
deixa aberta essa porta branca
dá-me ao menos a esperança
de um dia te poder encontrar
mesmo que em outra vida e lugar
(não me deixes com esta ânsia)
quem sabe se quem espera alcança!
guardo para sempre comigo
uma leve flor para te dar
domingo, 1 de Novembro de 2009
não me olhes assim
castiga-me
pela vontade de te querer
dissipa-me o pensamento
confessa-me que não me queres
inveja-me com o corpo de outro
diz-me que não és minha
mas não me olhes assim
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
outros que tais

te perco nas ruas
mas conheço o teu corpo
deixa-me ousar
ser mais um dos teus homens
deixa-me te amar
não sou igual aos demais
mas também eu tenho a mais
estes ardentes desejos infernais
teus olhos não podem sentir
o que o meu corpo te pode dar
ardem forte os leus lábios
na carne que te fez mulher
prende-me aos cristais
ouve os meus ais
e não queiras outros que tais
fecha a luz e no escuro
tacteia o meu respirar
escolhe-me como eleito
este amor também é fácil
e como nos outros que tais
também te levo a delírios finais
sem nunca sermos iguais
este corpo arde, sem se ver
faz ferver a saliva na tua pele
de um querer de não te ter
nas palavras que não falo
e quanto mais me amais
mais esqueces os outros que tais
pois eu te dou muito mais
experimenta-me, atreve-te!...
este sentir a te possuir é vício maior
(e não falo) o meu falo está na tua boca
a silenciar teus lábios a rasgar o prazer
são essas as mãos que me prostituais
como fazes a outros que tais
não me digas quem são e esqueces quais
é tão grande este excesso de ti
que nunca terás dos outros que tais
jamais
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

São as palavras que me fogem
se recolhem no pensamento
tornando intocável o sentimento
São as sementes da solidão
que crescem nos jardins da ilusão
de águas paradas na paisagem do tempo
São estes os últimos murmúrios
do corpo humano rendido à paixão
displicente ao tempo fora do tempo
somente à espera de reconhecer na mente
um outro corpo em forma ardente
sábado, 24 de Outubro de 2009

só quero vê-la
diante de mim
no distante
que estou de si
quem dará
aos meus olhos
um olhar
de trespassar horizontes
ao longe
onde vive ancorada
uma palavra sem som
à espera de um corpo
no último ângulo do mar
onde ventos de ternura
sopram seus cabelos
na leve ausência
deste tempo e espaço
galga a insinuante lua
provocando nos sentidos
os seus doces delírios
inquieta e semi-nua
os meus olhos
inventam os seus
num contorno de mulher
este distante
que estou de si
começa aqui
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
tenho pena

tenho pena de não ser
as tuas mãos quando
acaricias teus seios
os teus dedos
quando masturbas
teu sexo
não tenho pena de não ser
teu corpo nu frente ao espelho
só queria ser a alma
que te possui nesse momento
é tudo o que queria
é tudo o que bastaria
apenas a tua alma
domingo, 18 de Outubro de 2009
temo-te
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
hoje não queria

hoje não queria
escrever palavras
queria apenas
dar-te as minhas mãos
num poema com o toque
dos meus dedos:
nos teus seios, nádegas
e na tua pele fina e lisa
do teu corpo em fio de voo
para adormecer com a lua
és bela
(insustentavelmente bela)
faltam-me as mãos
e faltando tudo isso
faltam-me as palavras
(até as palavras emprestadas)
e fico neste espaço
de horizonte
entre a lua e este poema
sem te conseguir tocar
só com a flor do silêncio
consigo beijar tua boca
e juntar teu corpo
às palavras que não escrevo
que venha alguém

que venha alguém
mesmo que seja ninguém
calar este silêncio
que grita em mim neste momento
que venha agora e não tarde
...este silêncio arde!
segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
este fim de estação

despe a árvore
o calor do verão
vejo-te com o vestido
branco transparente
a moldar teu corpo
senti neste verão
o sangue da lua
no negro triângulo
húmido do calor do sol
a reflectir nos teu cabelos
deitados para trás
e as tuas mãos
a segurar teus seios
ainda te espero
neste outono
lembrando as tuas nádegas
redondas como o fruto
maduro e apetitoso
da estação
agora desnudas o sexo
das folhas que caiem
teus lábios ficam
a descoberto
como desejosos sucos
à espera de serem provados
antes de comido o fruto
sabor de clítoris esmagado
de onde se extraiu o vinho
das vinhas que crescem
ao lado das dunas da praia
hoje, engolindo humedeço
a boca seca do calor
escaldante desses dias:
sufoca-me este outono
esbracejo-me nos delírios
dos gemidos, dos gritos,
dos silêncios violados,
dos sonhos inacabados…
é outono
e eu perdi a coragem
de te olhar uma vez mais
(o verão é ousado)
o sol encharcou-me de luz
e agora correm as lágrimas
nas pétalas da saudade
que descem no teu corpo nu
este fim de estação
é terrivelmente árduo
obriga-me a fechar os olhos
e deitar todo este espasmo
sobre mim, mas foi assim
este fim de estação
sábado, 10 de Outubro de 2009
esquece-me

esquece-me
nesta manhã de sol
em que o silêncio acolhe
o que não pode alcançar
esquece este desejo insano
da nudez do teu corpo
deste Outono
esquece os meus sonhos
para que eles não envelheçam
com o meu corpo
esquece este segredo guardado
no enigma do silêncio dos segredos
são talvez os pássaros
os pássaros
que me trazem este fim
este último perfume deste dia
em que eu sei que tu sabes
que eu não sou eu
mas apenas um reflexo
de um instante de amor
reflectido no abismo do silêncio
da solidão destas palavras.
esquece-me
sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
juízo final

é iminente este desabar de sentimentos
palavras que ainda não são palavras
que não se separam do mundo imundo
do corpo preso nas sombras dos navios
este estar é ser num repouso irrequieto
num vazio esculpido na orla da vida
tudo está imerso nesta inquietação
na palavra dura e crua desta humanização
cai a última inocência perdida
e num templo ajuízam-se os culpados
lúcifer desejoso de queimar o perdão
transfigura o sujo do mundo na origem
nos presságios exilados na ferrugem
a lavar as mãos na árida avidez da consciência
se um palavra ao menos pudesse descobrir
a transparência nítida das coisas
uma vontade de salvar esta desordem
sossego que nenhum deus se atreve a quebrar
nada mais sei dizer deste descontentamento
o mundo ainda não julga as palavras por igual
até ao dia em que as vai escrever no juízo final
quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
instante

tão breve este momento
que já se perdeu no começo
um excesso de ter o instante
a terminar este sonho no princípio
...
compõe-se o acorde no instrumento
só a cor da musica fica
terça-feira, 6 de Outubro de 2009
silêncios

a lua olha sobre mim
um olhar que ninguém vê
a cintilar na água dos meus olhos
é um sonho que cai levemente
no mar negro da minha íris
onde palpitam ondas
ao ritmo tranquilo do meu coração
a noite faz descair
lentamente o teu rosto
para que eu beije o teu segredo
na tranquilidade que seduz os meus sentidos
dócil crepúsculo nupcial
na sede lisa da pupila
entre o lábio da lua e o meu
o sonho do mundo é uma palavra:
silêncios
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
se puderes aceitar este azul

se puderes aceitar este azul
na cumplicidade com o mar
com o teu excesso de corpo
na nudez selvagem do teu busto
fúlgido de mulher adormecida
num mar de espuma
num fogo que arde a água
no histerismo dos desejos
voluptuoso sentir entre amantes
se puderes aceitar este azul
sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
engano violador

desliza o silêncio
na cor dos teus lábios
sinto dentro a ferida
de carne viva
do teu sexo rasgado
o teu vestido branco
tenta esconder
esse corpo
que chamou o engano
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
espero por ti nas coisas mais simples

espero por ti
nas coisas mais simples
nos espaços que crio
reinvento-te
no mar da lua
onde navegas nua
e contemplo o
teu tempo
como um marinheiro
sem amarras
ao sabor da corrente
até que a lua venha
fazer amor com o mar
e a tua face em fase
da lua cheia
brilha dourada nas águas
até ao acordar do sol
nos teus olhos
na terra
onde te contemplo
o sol põe-se quando
nasce o dia
neste intervalo de tempo
desces até a mim
e fazes amor comigo
domingo, 27 de Setembro de 2009
como dói a madrugada!

sob os lençóis
deslizam silêncios
nas mãos flutuam
carícias aos seios
a língua desceu
em passe de ballet
presa na emboscada
da selva de sangue
dos sentidos
por fim consegui
um pouco de solidão
na imagem do vermelho
do teu rosto
retardei a alvorada
para prolongar
a noite
no desejo da lua
mordo a ferida
e ela nua
atravessa o quarto
o liquido se espalha
fecho os olhos
sobre a incerteza
como dói a madrugada!
quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
não consigo fugir mais aos teus olhos

não consigo
fugir mais
aos teus olhos
esse teu sorriso
tão leve de menina
em sedução de olhar
de mulher felina
diz-me antes não
não me deixes assim
carente de tudo
(menos desta ilusão)
não deixes em mim
este bater de pobre coração
andar por ai (perdido por ti)
diz-me antes não
ou então
(acaba com este fim!)
Diz-me apenas sim...
segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
duplicidade cúmplice

elejo a confusão
peço auxilio aos sonhos
mas irrequieto fico
com a palavra suada:
vinda de longe, muito longe
além do sonho, além da alma
tão extático este espaço
mundo real da fantasia
diálogo sem narrador
dos contos de criança
identidade autêntica ou de fábula
duplicidade cúmplice
enclausurada entre dois eus
uma vontade de sair da ausência
outra de ficar entre a vacuidade
quem sou eu sem este excesso?
serei uma exuberante confissão
da palavra parida no mundo da fantasia?
ou obedeço ao ser finito
embuçado na malha do verbo amar
que em pura ignorância
tenta escrever o verbo do silêncio
na imensa vastidão do mar?
o silêncio

é sempre
a mesma pergunta
é sempre
a mesma resposta
aqui estou de novo
lado a lado
a falar com ele
murmuramos
os dois
e
é sempre
a mesma pergunta
é sempre
a mesma resposta:
o silêncio
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
fecha os olhos e esquece

fecha os olhos
e esquece
que eu já te vi chorar
o meu olhar
acaricia as tuas lágrimas
guardadas dentro do baú
do teu último sorriso
o outono cala-se.
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
noite após noite
Se te gerei não sei, nem sei se vieste de mim, nem tão pouco se te quero assim, só sei que perdes a figura do dia quanto te enlaço. Inquieta-me não saber bem do que falo, se te imagino ou apenas quero falar de mim.
Perdida em ciúmes, deixaste o dia não amar mais o Sol, essa luz que tudo ilumina. E tudo apenas porque tu me amas mais; tomas o meu corpo e alma e dá-lhes vida na forma de estátua inquieta num obscuro fim.
As cores que o Sol espalhou despegam-se para se agarrar a mim, apago-as e refaço-as em outras cores mais intensas com que pinto, em tons claros, os afogos de gente que se despe da claridade bordada em raios de oiro para vestir o escuro nu.
Um mundo que existiu outro que está para vir, definir-te não sei, entender-te eu queria, mas que posso eu fazer se não consigo saber o que acaba e o que principia? Serás imagem do pecado como um chão rasgado? Pedra fria de calçada que se aconchega na noite com o pó da melancolia, trazendo a saudade na primeira estrela do céu que brilha? Ou serás apenas mera comoção de pegadas asparas do dia? Amor, sentimento, folha fugidia dos meus pés, que caminham num bosque adormecido de pobres sem manto e de cegos que só vêem a luz da noite nas sombras claras (feitas escuras) de luar que encobre com véu a palidez dos seres!
Como te queria entender escuridão! Esse sustento da vida que se esconde na noite nos candeeiros que cantam melodias de jasmim. Apagados da força do Sol adivinham os instintos dos desejos de corpos nus triunfantes às almas suadas: presas no escuro, em tépidos sonos de dança nocturna, onde o sangue que se agita e ferve faz criar os espinhos onde nascem as rosas.
Noites inteiras fico sem saber, oiço silêncios em gritos de espasmos, cerrados em limites ilimitados entre (des)encontros de paixões. Esta é mais outra noite. E noite após noite, vagueio na escuridão da vida e, no seio de todos os seres deste universo, passo a vida a estudar os seus gestos. Tudo o que encontro é uma conturbada imagem sem destino… Apenas sei que os meus olhos vêem mais do que deviam, mais do que de dia e acabo por saber que não sei deste tempo a que me rendo a ver para não me ver. E cego só consigo entender as imagens na escuridão da noite. Serei eu ou apenas ela?
domingo, 13 de Setembro de 2009
será um sinal de ti?

Apenas sinto a palavra escrita
quente húmida
vinda de ti
beijo o teu poema
na exuberante
vibração de cada fonema
tacteio teu jeito sedutor
em murmúrio do gemido
ao espasmo da erecção
do corpo nu das palavras
abraço aperto
na verbosidade do teu ser
a virgula a frase
invade o texto
e se entrega ao orgasmo
a folha molhada
passa pelos lábios
o sémen goteja o branco
as letras caem e o sexo arde
o poema já não existe
apenas a saliva que lambe
o sonho rasgado
bordando ao longe a lua
que embate contra o meu peito
será um sinal de ti?
é forte este sentir
(a lua é agressivamente bela!)
à noite o céu vai estar encoberto
com teu corpo nu todo descoberto.
sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
a paixão de um beijo dado

este desejo
estremece
meu corpo
frondoso
sentir
que não sei
explicar
talvez
seja esta
a paixão
pelas palavras
nubladas
esquecidas
num bulício
dos lábios
de um beijo
dado
ébrio oculto
e volúvel
de tão leve
momento
em oblívio
sentimento
quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
pressinto

pressinto
a longa distância
a tua sombra
sei
que me persegues
não sei
se ti vi antes
ou se sei
teu nome
apenas sei
que me persegues
a silhueta
do teu corpo
não engana
apesar
de reconhecer
somente
esta penumbra
de suor
que escorre
sobre mim
terça-feira, 8 de Setembro de 2009
Este excesso de querer

Este excesso de querer
uma alma frágil
em corpo selvagem
torna meu Ser inexplicável
Até as palavras nuas
ávidas de desejos intensos
são apenas palavras mudas
segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
domingo, 6 de Setembro de 2009
vem com essa insustentável nudez

vem
com essa
insustentável nudez
às mãos chegam
os sonhos da alma
os meus dedos
perseguem
de leve
as ondas
do mar ardente
do teu corpo
deixa a roupa
caída por ai
para que
o silêncio
sugue
todo o prazer
da tua carne
nua
sábado, 5 de Setembro de 2009
porque não te dás?

Mulher!
Suplico-te que venhas!
Mulher
vem, peço-te, chega agora,
sem demora
Possui meu corpo
prostitui-me os sentidos
faz-me apenas ficar louco
torna as palavras em gemidos
Mulher
Só eu sei
(mais ninguém)
da falta que me faz
cobrir o corpo de alguém
Mulher
porque não te dás?
Sente estas palavras
não tenhas medo do pecado
o teu corpo será perdoado
por alegrar minhas magoas
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
entre um sonho de emoções

eis-me na constante mentira
aberta entre o meu ser e eu
não sei se o que parece é
ou se é o que parece ser.
não sei se serei este corpo
ou se sou outro corpo de alguém
Será que eu estou a sentir?
ou apenas a pensar que sinto?
só me restam as emoções
para quebrar este divórcio
entre o sentimento e o pensamento
a palavra fala-me do poeta
o poeta fala-me do poema
e o poema fala-me do sonho
e o sonho fala-me de Deus
e assim o sonho fala de tudo
no silêncio sempre ausente
e esta metonímia do meu ser
torna as minhas palavras em nada
esta ideia de ser ou não ser
apaga todas as palavras
que acabo por escrever
e só quem lê o invisível
pode reencontrá-las
por entre um sonho de emoções.
quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
se eu pudesse

se eu pudesse
escrever o que sinto
eu faria um poema
imerso no pensamento
de ter tudo
e não querer nada
palavras da voz
do meu silêncio
invisíveis aos olhos
de todos vós
mas onde o poema
renasceria na vossa alma
esboçada pelos contornos
do corpo submerso na água
de um outro qualquer mar
em outro qualquer lugar.
quarta-feira, 2 de Setembro de 2009
a primeira vez

a primeira vez
que olhei vagamente
os teus olhos
senti uma brisa vaga
tão leve como o vento
foi esse o momento
que existiu
foi um único instante
e nada mais houve
que o silêncio vazio
a caminhar
pela tua alma
e a gozar teu corpo
Sentiste?
foi a aragem
do meu silêncio
que respiraste
nesta breve nudez
dos nossos olhos
que se encontraram
nesta curta viajem
terça-feira, 1 de Setembro de 2009
sentidos e não sentidos

a frágil leveza
dos meus sentidos
quebra a palavra
da frase que escrevo
e o poema torna-se
impossível
pela ausência
do seu sentido
ignoro o segredo
da poesia
fico apenas ligado
ao primeiro ser
que se fez Homem
onde reinava a conquista
dos sentidos
e não sentidos
segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
teu corpo mudo

teu corpo mudo
a voz da minha palavra
gaguejada
pela sensualidade
louca que me assombra
deflagra tempestades
de desejos intensos
gemidos da sombra
do prazer violável
tremo, vacilo
no movimento da palavra
para o corpo
frenético agitado
êxtase de delírios
na penetração funda
dos teus encantos
desprendes agora
teus cabelos sobre ombros nus
repousas nesta página
em silêncio e adormeces…
fico eu para te olhar
corpo de menina violada
mulher arremessada de pecado,
grito de um mar para outro mar
para as águas poderem chorar
domingo, 30 de Agosto de 2009
ilha de papel

ilha de papel
perdida no mar
só tu e eu
no imenso azul
o teu rosto é o sol
que refresca a tinta nua
do branco das folhas
e nos arabescos dos peixes
chega teu corpo desnudo
só com o silêncio nu
que me prolonga a vida
e me faz respirar
ai perdido na ilha
através do desejos do mar
e o pensamento do vento
estás presente
na presença da ausência
sou eu em silêncio nu
em obstinado desejo
ávido do teu corpo
quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
Existe nesta noite um silêncio

Existe nesta noite um silêncio
a unir o nosso olhar.
Este instante entre a palavra
não dita e este silêncio
fere um amor não começado
em vazio de leve iminência.
Eu sei que te amo só esta vez
e por ti percorro toda a distância
entre o teu silêncio e o meu.
Quando chego repousas as palavras
e falamos calados unindo os lábios
Neles leio um poema de fogo
e no respirar do som da noite
escuto o perfume de teu corpo.
Olho-te outra vez nos teus olhos
a cintilar o alvoroço ávido do amor
deito-me contigo no leito dos anjos
e adormeço na noite dos sentidos
até ao acordar da madrugada dos sonhos
Mas perdi a chave do meu secreto jardim
repouso agora como prisioneiro invisível
tenho demasiado corpo e alma
terei que viver à beira do meu ser
a sentir o odor da carne amada
a calma de uma outra vida
(absinto corrosivo de sonhos)
no livro que tens ao teu leito
e diante de ti todas as noites
dou-te a última palavra e o último olhar
até ao apaziguante bálsamo da madrugada
no suave recontro dos líquidos deslizantes
que espreguiçam teu corpo nu nos lençóis
e em silêncio digo ao teu sedutor olhar
- Eis-me aqui sempre, eu vim por ti!.
Será o sonho ou apenas o silêncio a falar por mim?
Ouço uma voz do além-vida
a tentar chamar por mim
Será que existe, será que és tu?
terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Nunca deveria ter olhado

Nunca deveria ter olhado
o teu olhar castanho deslumbrante
apenas deveria ter ficado calado
a sonhar teu sorriso lentamente
e torna-lo só meu apenas para sempre
segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
sinto em ti momentos inquietos

sinto em ti momentos inquietos
o princípio ou fim de um sentimento
um sonho esvai-se antes do tempo
um medo de dor desaba na tua alma
eu atiro no escuro a minha flecha
não sei, não tenho a certeza,
de rasgar a esperança dos sentidos
devo eu perseguir o teu corpo ferido
que apela a um anjo a salvação
desse tormento onde morrem deuses
nos sonhos que ficaram esquecidos
em imagens perdidas nos teus olhos
quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
sonhas dentro de mim

Sonhas dentro
das minhas veias
e deixas-te fluir
com teus encantos
nesta manhã dourada
de Verão
Matas-me a sede
com tuas formas
quentes e salgadas!
(um sopro
na tua sombra
desfalece este dia
de Agosto)
E é quase sol-posto
e neste ardente fogo
a luz das horas
já consumidas
brilham agora na nítida
firmeza de teu corpo
e mais uma vez
num dia de verão
eu te dei meu sangue
para seguir tua imagem
e relembrar teu rosto.
quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
palavra ausente

palavras
ficam por escrever
gelam na mão
como laminas pontiagudas
que perfuram a mente
e corroem a alma
só o coração
fica a bater
na página branca
do poema
da palavra
submissa
ao sentimento
excesso de poesia
invisível
na visível ausência
da palavra.
quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Lambe-me a brisa

Lambe-me a brisa
nesta noite quase fria
caminho embriagado
pelo azul que bebi do dia
as sombras cheias de melancolia
hospedam-se no meu silêncio
a palavra incerta
acolhe o pensamento
e respira o hálito do vento
com uma lufada de odores
vindos de corpos quentes.
Ouvem-se latidos abafados
apanágios das feras
que assaltam pocilgas
e a noite nada de novo revela
e assim continua
a aparência da vida.
Insignificantes estas palavras
que acabam, como sempre
a não conduzir a nada
eu apenas sei
que sou o primeiro e último
a caminhar nesta estrada.
terça-feira, 11 de Agosto de 2009
contradição do amor

amo quem nunca amei
e amei uma só vez
nos instantes
ainda não consumados
este amor sempre amado
peca por ser demasiado
perpétua contradição
deste amor tão profundo
sempre e sempre inacabado.





