«que sentir é este sentir dos meus sentidos a sentir?»

«os sentidos são a engenharia da arte e o sentimento o projeto»

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

se puderes aceitar este azul




























se puderes aceitar este azul
na cumplicidade com o mar
com o teu excesso de corpo

na nudez selvagem do teu busto
fúlgido de mulher adormecida
num mar de espuma
num fogo que arde a água
no histerismo dos desejos
voluptuoso sentir entre amantes

se puderes aceitar este azul

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

engano violador



desliza o silêncio
na cor dos teus lábios
sinto dentro a ferida
de carne viva
do teu sexo rasgado

o teu vestido branco
tenta esconder
esse corpo
que chamou o engano

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

espero por ti nas coisas mais simples




























espero por ti
nas coisas mais simples
nos espaços que crio
reinvento-te
no mar da lua
onde navegas nua
e contemplo o
teu tempo
como um marinheiro
sem amarras
ao sabor da corrente
até que a lua venha
fazer amor com o mar
e a tua face em fase
da lua cheia
brilha dourada nas águas
até ao acordar do sol
nos teus olhos

na terra
onde te contemplo
o sol põe-se quando
nasce o dia
neste intervalo de tempo
desces até a mim
e fazes amor comigo

domingo, 27 de setembro de 2009

como dói a madrugada!






















sob os lençóis
deslizam silêncios
nas mãos flutuam
carícias aos seios
a língua desceu
em passe de ballet
presa na emboscada
da selva de sangue
dos sentidos

por fim consegui
um pouco de solidão
na imagem do vermelho
do teu rosto

retardei a alvorada
para prolongar
a noite
no desejo da lua

mordo a ferida
e ela nua
atravessa o quarto
o liquido se espalha
fecho os olhos
sobre a incerteza

como dói a madrugada!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

não consigo fugir mais aos teus olhos




























não consigo
fugir mais
aos teus olhos

esse teu sorriso
tão leve de menina
em sedução de olhar
de mulher felina

diz-me antes não
não me deixes assim
carente de tudo
(menos desta ilusão)

não deixes em mim
este bater de pobre coração
andar por ai (perdido por ti)
diz-me antes não

ou então

(acaba com este fim!)
Diz-me apenas sim...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

duplicidade cúmplice





















elejo a confusão
peço auxilio aos sonhos
mas irrequieto fico
com a palavra suada:
vinda de longe, muito longe
além do sonho, além da alma

tão extático este espaço
mundo real da fantasia
diálogo sem narrador
dos contos de criança
identidade autêntica ou de fábula
duplicidade cúmplice
enclausurada entre dois eus

uma vontade de sair da ausência
outra de ficar entre a vacuidade
quem sou eu sem este excesso?
serei uma exuberante confissão
da palavra parida no mundo da fantasia?
ou obedeço ao ser finito
embuçado na malha do verbo amar
que em pura ignorância
tenta escrever o verbo do silêncio
na imensa vastidão do mar?

o silêncio


























é sempre
a mesma pergunta
é sempre
a mesma resposta
aqui estou de novo
lado a lado
a falar com ele
murmuramos
os dois
e
é sempre
a mesma pergunta
é sempre
a mesma resposta:

o silêncio

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

fecha os olhos e esquece




























fecha os olhos
e esquece
que eu já te vi chorar

o meu olhar
acaricia as tuas lágrimas
guardadas dentro do baú
do teu último sorriso

o outono cala-se.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

noite após noite

Se te gerei não sei, nem sei se vieste de mim, nem tão pouco se te quero assim, só sei que perdes a figura do dia quanto te enlaço. Inquieta-me não saber bem do que falo, se te imagino ou apenas quero falar de mim.

Perdida em ciúmes, deixaste o dia não amar mais o Sol, essa luz que tudo ilumina. E tudo apenas porque tu me amas mais; tomas o meu corpo e alma e dá-lhes vida na forma de estátua inquieta num obscuro fim.

As cores que o Sol espalhou despegam-se para se agarrar a mim, apago-as e refaço-as em outras cores mais intensas com que pinto, em tons claros, os afogos de gente que se despe da claridade bordada em raios de oiro para vestir o escuro nu.

Um mundo que existiu outro que está para vir, definir-te não sei, entender-te eu queria, mas que posso eu fazer se não consigo saber o que acaba e o que principia? Serás imagem do pecado como um chão rasgado? Pedra fria de calçada que se aconchega na noite com o pó da melancolia, trazendo a saudade na primeira estrela do céu que brilha? Ou serás apenas mera comoção de pegadas asparas do dia? Amor, sentimento, folha fugidia dos meus pés, que caminham num bosque adormecido de pobres sem manto e de cegos que só vêem a luz da noite nas sombras claras (feitas escuras) de luar que encobre com véu a palidez dos seres!

Como te queria entender escuridão! Esse sustento da vida que se esconde na noite nos candeeiros que cantam melodias de jasmim. Apagados da força do Sol adivinham os instintos dos desejos de corpos nus triunfantes às almas suadas: presas no escuro, em tépidos sonos de dança nocturna, onde o sangue que se agita e ferve faz criar os espinhos onde nascem as rosas.

Noites inteiras fico sem saber, oiço silêncios em gritos de espasmos, cerrados em limites ilimitados entre (des)encontros de paixões. Esta é mais outra noite. E noite após noite, vagueio na escuridão da vida e, no seio de todos os seres deste universo, passo a vida a estudar os seus gestos. Tudo o que encontro é uma conturbada imagem sem destino… Apenas sei que os meus olhos vêem mais do que deviam, mais do que de dia e acabo por saber que não sei deste tempo a que me rendo a ver para não me ver. E cego só consigo entender as imagens na escuridão da noite. Serei eu ou apenas ela?

domingo, 13 de setembro de 2009

será um sinal de ti?




























apenas sinto a palavra escrita
quente húmida
vinda de ti
beijo o teu poema
na exuberante
vibração de cada fonema
tacteio teu jeito sedutor
em murmúrio do gemido
ao espasmo da erecção
do corpo nu das palavras
abraço aperto
na verbosidade do teu ser
a virgula a frase
invade o texto
e se entrega ao orgasmo

a folha molhada
passa pelos lábios
o sémen goteja o branco
as letras caem e o sexo arde

o poema já não existe
apenas a saliva que lambe
o sonho rasgado
bordando ao longe a lua
que embate contra o meu peito
será um sinal de ti?
é forte este sentir
(a lua é agressivamente bela!)

à noite o céu vai estar encoberto
com teu corpo nu todo descoberto.
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